quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Papo de louco


- E ela?
- Sumiu.
- Acertou de novo?
- Acho que sim.
- Queria ser assim.
- Eu não.
- Sofreria menos.
- Porra nenhuma! Você sofre mais. Você já sabe o que vai acontecer, mas não tem o que fazer.
- Como você sabe?
- É fácil, velho. Se você olha nos olhos, presta atenção no que elas dizem, é fácil.
- E a mão na bunda?
- É conseqüência. Olha nos olhos e presta atenção. É sério.
- Aí você sabe quando elas vão sumir?
- É.
- E nunca falha?
- Na verdade, nunca dá certo. Elas querem mão na bunda, não olho no olho.
- Então porque você fica ouvindo e olhando no olho?
- É que a cada mil, uma mente melhor. Aí eu quase acredito nessa lenga lenga de olhos nos olhos e não sei o que.
- Mas não era infalível?
- Foi você quem disse isso. Até agora não funcionou comigo.
- Mas você sempre acerta! Como não funcionou?
- Eu sempre acerto por um único motivo: elas sempre somem.
- E você continua acreditando?
- Sim. Mas vamos mudar de assunto? Puta papo de louco...
- Vai se tratar, velho. Sério.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O Cara

- E aí, garoto! Quanto tempo, não?
- Sim, muito. Como você está?
- Bem, e você?
- Também. Morando fora há um tempo, fico meio perdido quando volto.
- São os cachos?
- Você não vai acreditar! Uma amiga de São Paulo usa essa mesma expressão: cachos! Mas não. O que me deixa perdido aqui não são cachos. Tenho a impressão de que deixei pouca coisa sólida aqui. Pouca coisa verdadeira.
- Você deu pra beber?
- Eu? Deveria...
- Todo mundo te adora. Até sua ex namorada fala bem de você.

Risadas altas.

- Ela não conta, pô. Ela é muito legal.
- Não, brother. Ela é apaixonada. É outra história.
- Isso aí é uma longa história. Aliás, uma longa mentira.
- Mentira nada. Ela ainda gosta de você. Eu posso provar.
- Eu sou a mentira.
- Se eu te pagar uma cerveja, você explica?
- Nem precisa. Está preparado? Estou precisando de uns conselhos mesmo.
- Então explica. De onde vem tanto amor?

Mais risadas altas.

- Na cabeça dela, eu preencho os requisitos necessários para ser considerado um bom namorado.
- Isso não é bom?
- Na teoria, sim.
- Continua.
- Continuo. É simples. Uma vez, há uns cinco anos atrás, eu li um texto que ela escreveu, explicando tudo o que ela queria de um namorado.
- Vocês namoravam nessa época?
- Sim. Aí ficou fácil. Fui fazendo tudo do jeito que ela queria.
- E ela não sabe?
- Não. Aí ela acha que eu sou o cara. E conta isso pra todo mundo.
- Mas você é o cara!
- NÃO! Eu sou uma farsa.
- Me explica uma coisa: porque você fez tudo o que ela queria?
- Ah, tem vários motivos.
- Explica.
- Primeiro porque eu queria agradar.
- Porque?
- Porque eu gostava dela. E depois por que eu concordava com o que ela "pedia".
- Viu? Tu é foda.
- Vai se ferrar.
- Tu é o cara.

Muito mais risadas.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Ele.

Ele explicava o mundo com futebol e mulher. Comparava qualquer coisa com os dois únicos assuntos que conhecia. Mas bom mesmo, era quando ele usava um para falar do outro.
- O jogo da conquista é uma partida de futebol. Simples assim. Tem que driblar. Tem que ensaiar jogada. Tem que manter  a posse da bola, atacar na hora certa.
Não eram raras as vezes em que os amigos o aplaudiam. Ele fazia piadas que só eles entendiam, na frente das mulheres. E o principal, sem que elas percebessem.
- Camisa 10. Joga com as duas. Bate falta, escanteio, pênalti e manda no time.
Quando conseguia entender alguma comparação, ela ficava orgulhosa, emse sentir parecida com ele.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Ele.

Ela abriu a porta com força. Estava brava.
Entrou na sala, deu um oi todo murcho e ficou procurando alguma coisa na despensa.
Voltou séria.
- Que foi?
- Tô chata. Vai passar.
- Vem cá.
- Vou fazer macarrão, vai querer? Já comeu?
- Ainda não.
- Molho vermelho?
- Vem cá!
- Deixa eu ferver a água...
- Vem cá? Olha a minha cara de pidão!
Pela primeira vez, desde que entrou, ela sorria.
Ela sabia que, de alguma maneira, ele faria alguma coisa que a deixaria mais calma.
Era impossível prever o que. E sem saber bem o porque ela já estava menos chata.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O Reserva

“Aquece!”
Quem já ficou num banco de reservas sabe o que isso quer dizer.
Ele se alongou, levantou o meião, correu, esticou tudo.
Camisa pra dentro. Instruções ao pé do ouvido. Mãos para cima. Oração.
GOL. Mais, golaço!
Estádio e meião vão abaixo.
Lugar de reserva é no banco.


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Youtube, Lenine e Vinicius

Pedi a Lenine que fizesse silêncio.

Rapidinho, enquanto eu lia Vinícius.

Ele me concedeu a pausa, sorrindo.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Ensinei ao amor platônico o significado de saudade.
Saudade é um aperto no peito.
Saudade é não apertar.
Saudade é não ter perto.

O amor, platônico, concluiu: amor platônico é saudade antecipada.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Dia de arrumar algumas coisas


Domingo é dia de refexões. Pouco depois de acordar e ouvi a história de um amigo que bebeu de mais no sábado a noite e vomitou na balada. Ele se culpava e estava visivelmente envergonhado. Coisas de domingo.
Comecei a arrumar meu quarto e decidi sair pra comprar um tapete e algumas almofadas. Há algum tempo eu queria criar um espaço no meu quarto onde eu pudesse trabalhar, tocar, ouvir um som ou ler. Fui ao Shopping Santa Cruz ver o que eu encontrava para o meu novo recinto.
No caminho passei por um homem sentado na calçada que me pediu dinheiro. Ele tinha os pés descalços e sentava em um papelão. Disse a ele que não tinha. Continuei.
Já no o Shopping, comprei um tapete e três almofadas. Tudo muito próximo do que pensei para montar um sofá no chão.
Voltei pelo mesmo caminho e o homem estava lá ainda, no mesmo lugar. Ainda com os pés descalços e pedindo dinheiro. Eu novamente disse que não tinha.
Senti vergonha de passar ali.
Rezei para que ele não lembrasse de mim. Rezei para que não lembrasse da minha cara. Não lembrasse que antes de comprar um tapete e três almofadas eu tinha passado ali, dizendo que não tinha dinheiro.
O tapete começou a pesar uma tonelada nos meus ombros.
Aquele homem, como tantos outros por quem eu e você passamos todos os dias não precisava só de dinheiro. Ele precisava de atenção, de carinho, de oportunidade e de tantas outras coisas, que como o dinheiro, eu tinha e não dei. Fui pra casa pensando nisso.
Arrumei meu quarto, coloquei o tapete, as almofadas, trouxe meus instrumentos pra perto, e estava pronto o novo canto da casa. Um lugar onde eu podia, como tantos outros moradores de rua, me sentar no chão e tocar violão.
Fiquei pensando nisso. Pensando no que é que eu, você, e tantas outras pessoas estão fazendo pra ajudar o próximo. Ajudar um desconhecido. Ajudar quem pouco ou nada tem. Seja de dinheiro, de atenção ou de carinho.
Nesse domingo eu refleti. E me senti a pior pessoa do mundo.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Domingo Fiado


Abusei do sábado a noite, e perdi  cartão do banco. Na hora de pagar o almoço de domingo foi que eu me dei conta. E aí já era tarde. Dezesseis reais emprestados com o Goiano. Dezesseis e cinqüenta, na verdade. O preço do meu filé de frango a parmegiana.
Voltei pra casa, e comecei a procurar meu dinheiro de plástico. Inútil.
Quando eu já negociava um empréstimo com o Rodrigo e outro com o Quicão, me lembrei de procurar embaixo do som. Ta lá, achei. Empréstimos desfeitos, vamo pro jogo.
O jogo era Palmeiras e Avaí no estádio da Portuguesa, o Canindé.
Passamos num posto da Sena Madureira e todo mundo foi sacar dinheiro. Coloquei meu cartão na máquina e vi uma mensagem de erro. Aquele era um cartão antigo, já não valia mais. Perdi o cartão de novo.
Voltei ao assunto do empréstimo com o Quicão e o Rodrigo. Vinte reais de cada um, e vambora. Com os seis e cinqüenta que eu tinha, dava pra ver o jogo e ainda beber alguma coisa. Compramos os ingressos, umas bebidas e entramos.
O Canindé é velho, mas é charmoso. Fora isso o Palmeiras tem sorte no estádio dos portugas.
Não deu outra. Vitória maiúscula: 5 a 0 em casa. Dois do Luan, dois do Kleber e um do Lincoln. Fora uma arrancada do Cicinho, um gol perdido pelo Wellington Paulista e a expectativa frustrada de ver o Marcos fazer um gol de pênalti. O Felipão não deixou.
Foi um domingo rico, que valeu cada centavo emprestado.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Desengracei.

Você descobriu como me deixar sem graça. Me lembro como ontem. Tomávamos sorvete na Alaska do Boa Esperança. Eu, você, sua irmã e a Pamela.
Passaram uma hora me elogiando. E eu, como é meu costume, fiquei sem graça. Vocês achavam engraçado. Eu, o mais engraçado, virava um pamonha, sem graça. Dali em diante ruborizei muitas vezes. Quando eu aparecia de barba feita, choviam elogios. Quando eu ligava para fazer uma visita, também. Quando eu fazia um elogio era, definitivamente, o melhor homem do mundo. Título complicado de carregar. Outras observações suas eu prefiro não contar, mas ouvi. Ouvi e ouviram pessoas que não deveriam ouvir. Nessas vezes elas ficaram sem graça por mim. Desviaram seus olhares, e mudaram os seus assuntos. Eu fiquei ali, sem graça, com um falar amarelo, rezando para que você parasse de me elogiar em voz alta.


Hoje você acabou com a minha graça. E não tem gracejo nesse mundo que me faça ficar sem jeito de novo. Hoje eu sou um desgraçado. De hoje em diante pode levar seus elogios para os príncipes encantados que você conheceu mundo a fora. Eles, sim, merecem a sua verdade. Eu sou apenas um mentiroso, que talvez não ouça nenhum elogio seu no nosso próximo encontro. Nem precisa, a minha graça com você acabou.

domingo, 1 de maio de 2011

Prece

Orungã é rei dos ares. Filho de Iemanjá, mãe a quem violentou dando origem aos rios e aos mares.  Lá do alto, dos céus de Orungã eu olhava os rios de Iemanjá.  O interior do avião tinha um tom avermelhado-pôr-do-sol. Eu sabia que em mais ou menos 24 horas eu estaria, já em terra firme, analisando meu primeiro dia de trabalho.
Voava de Cuiabá, terra de São Benedito, para São Paulo, terra do santo com meu nome, e que antes de santo fora Saulo, o nome do meu irmão.
Pensava que, talvez, nenhuma outra pessoa tivesse pensado em fazer esse caminho como eu fiz. Se aventurar para outras terras procurando um trabalho em uma grande agência de propaganda. Talvez se Cuiabá fosse terra de Santo Expedito os homens teriam mais coragem. Talvez não. Talvez São Benedito tratasse muito bem seus filhos mais chegados, dando-lhes um pôr-do-sol tão bonito que quem nasce ali não consegue se afastar.
O piloto do avião confirmava que o pouso estava autorizado.
Orungã deixara nossa viagem acontecer em paz.
Eu pedi a Orungã, a Iemanjá, a São Benedito, a São Paulo, que tinha meu nome, a Santo Expedito, das causas impossíveis e Deus, Pai de Todos. Pedi sabedoria e forças para que eu pudesse ir cada vez mais longe. E que eu pudesse sempre voltar, para ver o pôr-do-sol mais bonito que qualquer homem já viu, presente de São Benedito.

domingo, 17 de abril de 2011

Domingo é dia de jogo.

Domingo é dia de jogo.
Vc pode ficar em casa e assistir o seu time.
Pode ver o seu camisa 9 dedicar o gol pra namorada dele.
E se ele fizer 3 gols vc ainda pode ouvir a música que ele pediu no fantástico.
Ou você pode montar o seu time.
Pode ser o camisa 9, meter gol num goleiro amigo, e dedicar pra sua namorada. Ou pra mina que vc pegou no sábado, no chorinho ou no garage.
Se fizer 3 gols, pode dedicar um pra cada mina que você pegou no sábado, e ainda escolhe a música pros seus amigos ouvirem no carro, durante a volta pra casa.
E ainda chega em casa a tempo de ver o fantástico e ouvir a música que o seu camisa 9 pediu.

LOUCASSOS POR FUTEBOL.
Todo domingo, das 15 as 18 horas.

sábado, 16 de abril de 2011

Conversas inteligentes, de amores bem acabados.


Entre futebol, astronomia, vida dos outros, e gastronomia, eles conversavam também sobre eles. O namoro que tiveram, as pessoas com quem mantiveram contato depois que o namoro acabou, os namoros que vieram depois. Tudo era assunto para aqueles dois. Suas afinidades superavam em muito as suas diferenças.
Ela tinha rodado o mundo. Foi pra Índia, pra Alemanha, lençóis maranhenses, Cuba, Florianópolis e um monte de outros lugares. Passou um carnaval maluco, em Diamantina, mesmo sem ter mais idade pra isso.
Ele mudou pro Rio de Janeiro, fez especialização no Uruguai, mestrado no México, e trabalhou na Argentina e no Peru. Conhecia um pouco da história e da cultura de cada lugar que viveu.
Naquele exato momento ele explicava a ela que a típica cerveja com limão mexicana tinha sido inventada apenas para espantar as moscas de perto da boca da garrafa. Ela agora tinha um olhar muito mais interessado na sua long neck.
Ela era publicitária, e trabalhava em uma agência de São Paulo. Ele era engenheiro, e tinha uma empresa consultoria de edificações.
Gostavam de se encontrar, mesmo que por acaso. Dessa vez tinham combinado um encontro com uma turma de amigos em comum. Conversavam à beira da piscina. Vira e mexe alguém entrava e saía da conversa. Não era segredo pra ninguém que os dois gostavam de se encontrar e conversar sem embaraço. Não eram um casal, mas algum desavisado poderia jurar que sim.
Ele era muito educado. O copo dela não ficava vazio.
Ela era legal. Nunca deixava ele buscar a cerveja sozinho.
Enquanto ele dava aula no futebol com os amigos, ela ouvia das amigas brincadeiras sobre o fôlego do rapaz.
Ele foi embora de bicicleta.
Ela foi de carro.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Enfim, publicitária


Um ciclo nunca se fecha sem que haja um momento de reflexão.
É um ritual comum. Você planeja, faz as coisas acontecerem mais ou menos dentro do que foi pensado, e no final, avalia.  Não é um simples momento de julgar. É a hora também de planejar de novo. Começar de novo.
Tinha terminado um namoro de 2 anos, na mesma semana em que terminava a monografia. Sua chefe tinha saído de ferias e deixado de presente a maior campanha publicitária do ano pra ela criar.
Todos na agência sabiam que ela ainda não estava pronta para um desafio tão grande, mas não havia como ser diferente. Tinha que ser ela.
Em duas semanas não viu os dias passarem. Entregou a monografia, engoliu os sentimentos e fez da campanha um sucesso de vendas.
O relatório chegara às suas mãos na tarde de uma terça feira, com um parabéns escrito em letras garrafais. A campanha tinha sido, de fato, um acontecimento. Ela tinha superado as expectativas de todos. Inclusive as dela.
Terminou de ler o relatório, pegou uma caneta, um bloco de papel e começou a escrever. Agradeceu os professores, os colegas de faculdade, o ex namorado, o chefe e todos mais que pode lembrar. Pediu desculpas aos que foram esquecidos, mas também agradeceu a eles.
Terminou o texto com uma rapidez que nem mesmo ela soube explicar. Estavam ali relatados momentos preciosos da sua vida. Sem saber bem porque rasgou o texto e deixou uma primeira lágrima escorrer pelo rosto.
Saiu da criação e correu da maneira mais discreta que conseguiu até o banheiro. Nenhum colega de departamento percebeu sua pressa. Ela não queria que isso acontecesse.
Sentou-se no chão do banheiro e por 10 minutos chorou.
Chorou sem saber porque.
Chorou porque queria chorar.
As lágrimas fechavam o ciclo. Um ciclo que ela viu passar com uma velocidade incompatível ao tempo real de tudo o que aconteceu.
Levantou-se, lavou o rosto, voltou pra mesa de trabalho e começou a rascunhar sua próxima campanha.