- E aí, garoto! Quanto tempo, não?
- Sim, muito. Como você está?
- Bem, e você?
- Também. Morando fora há um tempo, fico meio perdido quando volto.
- São os cachos?
- Você não vai acreditar! Uma amiga de São Paulo usa essa mesma expressão: cachos! Mas não. O que me deixa perdido aqui não são cachos. Tenho a impressão de que deixei pouca coisa sólida aqui. Pouca coisa verdadeira.
- Você deu pra beber?
- Eu? Deveria...
- Todo mundo te adora. Até sua ex namorada fala bem de você.
Risadas altas.
- Ela não conta, pô. Ela é muito legal.
- Não, brother. Ela é apaixonada. É outra história.
- Isso aí é uma longa história. Aliás, uma longa mentira.
- Mentira nada. Ela ainda gosta de você. Eu posso provar.
- Eu sou a mentira.
- Se eu te pagar uma cerveja, você explica?
- Nem precisa. Está preparado? Estou precisando de uns conselhos mesmo.
- Então explica. De onde vem tanto amor?
Mais risadas altas.
- Na cabeça dela, eu preencho os requisitos necessários para ser considerado um bom namorado.
- Isso não é bom?
- Na teoria, sim.
- Continua.
- Continuo. É simples. Uma vez, há uns cinco anos atrás, eu li um texto que ela escreveu, explicando tudo o que ela queria de um namorado.
- Vocês namoravam nessa época?
- Sim. Aí ficou fácil. Fui fazendo tudo do jeito que ela queria.
- E ela não sabe?
- Não. Aí ela acha que eu sou o cara. E conta isso pra todo mundo.
- Mas você é o cara!
- NÃO! Eu sou uma farsa.
- Me explica uma coisa: porque você fez tudo o que ela queria?
- Ah, tem vários motivos.
- Explica.
- Primeiro porque eu queria agradar.
- Porque?
- Porque eu gostava dela. E depois por que eu concordava com o que ela "pedia".
- Viu? Tu é foda.
- Vai se ferrar.
- Tu é o cara.
- Tu é o cara.
Muito mais risadas.
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