Orungã é rei dos ares. Filho de Iemanjá, mãe a quem violentou dando origem aos rios e aos mares. Lá do alto, dos céus de Orungã eu olhava os rios de Iemanjá. O interior do avião tinha um tom avermelhado-pôr-do-sol. Eu sabia que em mais ou menos 24 horas eu estaria, já em terra firme, analisando meu primeiro dia de trabalho.
Voava de Cuiabá, terra de São Benedito, para São Paulo, terra do santo com meu nome, e que antes de santo fora Saulo, o nome do meu irmão.
Pensava que, talvez, nenhuma outra pessoa tivesse pensado em fazer esse caminho como eu fiz. Se aventurar para outras terras procurando um trabalho em uma grande agência de propaganda. Talvez se Cuiabá fosse terra de Santo Expedito os homens teriam mais coragem. Talvez não. Talvez São Benedito tratasse muito bem seus filhos mais chegados, dando-lhes um pôr-do-sol tão bonito que quem nasce ali não consegue se afastar.
O piloto do avião confirmava que o pouso estava autorizado.
Orungã deixara nossa viagem acontecer em paz.
Eu pedi a Orungã, a Iemanjá, a São Benedito, a São Paulo, que tinha meu nome, a Santo Expedito, das causas impossíveis e Deus, Pai de Todos. Pedi sabedoria e forças para que eu pudesse ir cada vez mais longe. E que eu pudesse sempre voltar, para ver o pôr-do-sol mais bonito que qualquer homem já viu, presente de São Benedito.