terça-feira, 28 de setembro de 2010

Geba


Como sabia contar histórias aquele sujeito. Geba. Não sei bem de onde veio o apelido, mas lhe caía bem. Ele tinha cara de Geba mesmo. Contador de histórias como poucos, sabia dar o devido valor a cada detalhe.
Esmiuçava as caretas e as expressões de cada envolvido em seus causos, tornando cada história ainda mais incrível.
Por que um bom contador, além de melhorar as histórias ruins, sempre tem acontecimentos incríveis para relatar minuciosamente.
Naquela noite de terça ele me contava sobre o jogo de futebol americano que acabara de fotografar.
Detalhes sobre a luz, as lentes, a torcida, as sensações, tudo. Tudo era alvo da atenção daquele excepcional fotógrafo, que sabia mais do que fazer uma foto. Ele sabia contá-la.
O full back recebera livre na última chance do time para converter o ponto. Escapara de um marcador e pulara de um outro convertendo o touch down já na prorrogação. Mas não era apenas um pulo. Era um pulo contado por ele. Tinha uma emoção de quem assiste um gol do outro futebol, marcado aos 45 minutos do segundo tempo de uma final.
Eu sentia a truculência do time adversário na maneira como o meu interlocutor fechava a cara ao contar cada segundo da partida.
Depois teve ainda o touch down do time visitante. Talvez ele tivesse contando com um pouco menos de empolgação. Como eu disse, ele sabia dar o devido valor a cada detalhe.
Terminou a sua narração póstuma, e se encarregou de mostrar as fotos do evento. Ainda frescas, na máquina mesmo. Sem edição.
Eram boas. Muito bem feitas e isso eu já esperava dele.
Mas não era o mesmo touch down que ele havia me contado. Aquilo que o visor da camera me mostrava era um belo pulo, uma foto impressionante de um momento exato. Mas faltava alguma coisa. Faltava a narração. Faltava o Galvão Bueno gritando: É tetraaa!
Como sabia contra histórias aquele sujeito.