Era uma noite boa. Já tínhamos falado muito sobre futebol, internet e mulheres. Os trigêmeos e o Michel tinham enchido o saco dos palmeirenses, por conta da desclassificação na Copa do Brasil. Os palmeirenses (dentre os quais estava eu) já tinham falado sobre a eliminação do Corinthians na libertadores. E os são paulinos mantinham aquele ar de superiores que sempre tem, mesmo quando ganham feio, seja na Copa do Brasil ou na Libertadores.
Enfim, os assuntos iam se acabando e a hora de fumar se aproximava. O Michel foi embora. Já passavam das duas horas da manhã e ele tinha que trabalhar cedo. O Paulinho saiu pra andar com a gente, por que tinha que trabalhar e não queria dormir antes da labuta.
Seguimos para uma praça, já com o cigarro produzido. Sim, de vez em quando nós fabricamos nossos próprios cigarros. Embora a gente goste do controle de qualidade que os cigarros prontos nos fornecem, de vez em quando a gente troca toda essa qualidade por uma boa quantidade de risadas. Sempre vale a pena.
Na praça encontramos um senhor, que dizia ser de Minas Gerais, e estava em São Paulo para um tratamento cardíaco. Tinha 42 anos e vendia algumas coisas que tinha pra poder comprar comida. Um gel de cabelo, uma escova de cabelo e uma geléia feita pela mãe dele.
Conseguimos juntar R$ 9,00 pra ele e nem pegamos nada do que ele tinha. Ele de fato parecia precisar da grana. Alem de cardíacos, a praça sempre tem desabrigados, como tantas outras. Sentamos por perto de alguns, que a essa hora já dormiam.
As risadas já estavam um pouco altas quando o último morador da praça chegou. Com cara de cansado e se eu não me engano, ligeiramente alcoolizado. Chegou e começou a gritar pra acordar um japonês que dormia num banco com dois cobertores. Um cobertor era dele, do nosso futuro colega.
Depois de desistir do cobertor do colega, ele resolveu conversar com a gente. Contou o dia dele inteiro, da hora que acordou até a briga que já tínhamos visto com o japonês ladrão de cobertor.
- Passei o dia na Higienópolis, dizia ele. Cara humilde que mora ali vocês não sabem quem é.
- Ronaldo! Respondeu o Paulinho acabando com o suspense criado por ele.
- Ele mesmo. Todo dia eu vejo a X6 dele entrando na garagem.
Se quando ele começou a falar nós achávamos que ele estava mentindo, a essa hora tínhamos certeza, mas ele era divertido. Pediu um daqueles cigarros industrializados e ficou no canto dele fumando. Ele lá, a gente cá.
A gente já tinha se levantado pra ir embora quando ele resolveu puxar mais um assunto. Não me lembro muito bem o que era, mas foi interrompido pelo Danilo:
- Você conhece o Alemão ali da Higienópolis? Claramente inventando um nome de alguém que ele nunca viu.
- O Alemão? É meu parceiro! Mentiu ele (ou não). Mas nem fala muito dele aqui não, porque os caras aí não gostam muito dele não.
Seguramos o riso enquanto deu. E acho que na hora que todos começaram a rir, nosso colega já não podia mais ouvir. Estávamos suficientemente longe da praça, falando de futebol, internet, mulheres e do Alemão.