quarta-feira, 28 de julho de 2010

Mentiras


Pessoas mentem. E isso é fato.
Todos os dias, todo mundo mente.
Ou pra mãe, ou pro chefe, pra um amigo ou um desconhecido.
A mentira faz bem pro ego. Leva pra longe, mesmo que momentaneamente, as angústias que alguém pode carregar.
Tem sempre alguém querendo parecer um filho melhor, um funcionário melhor, um amigo melhor ou um desconhecido bacana.
Mentir para os outros é a segunda pior coisa que alguém pode fazer.
Mentir pra si mesmo é , com certeza, a primeira
Fingir ser alguém que não é.
Fazer alguma coisa que não quer.
Dizer alguma coisa em que não acredita.
O porque de tanta mentira?
As pessoas mentem porque querem ser melhores. Parecer melhores.
Porque toda mentira começa em uma verdade, que gostaríamos de esconder.

Brasília, com Millôr


A terra é uma massa redonda, ligeiramente chata nos pólos e muito mais em Brasília. Não sou só eu que acho isso.
E é muito fácil provar que é verdade.

Tem pouca gente nos pólos. Culpa do frio.
Sobra gente em Brasília. Culpa do Senado.

Fala-se pouco nos pólos. Culpa do frio.
Fala-se demais em Braília. Culpa da imprensa.

Nos pólos há pingüins e ursos.
Em Brasília, veados.

No fim das contas, parece que Deus se esqueceu dos pólos.
E nunca viu Brasília.

Pra não parecer que só falo de problemas, fica aqui a minha solução.
A terra continua redonda, ligeiramente chata nos pólos e a gente explode Brasília.

Buzinas


Poucas coisas me irritam mais que alguém buzinando no trânsito. Talvez o meu pai buzinando na minha orelha. Talvez.
Qualquer pessoa que tenha freqüentado a auto escola sabe: a buzina deve ser tocada de maneira moderada uma ou duas vezes para alertar alguém ou chamar a sua atenção. Só.
A conclusão óbvia é: motoqueiros não fizeram auto escola.
Eles buzinam quando querem furar um sinal, quando passam no corredor formado pelos carros, quando quebram um retrovisor, quando se encontram, quando passa uma gostosa na calçada, quando viram sem dar seta, ou simplesmente porque já estão viciados, mesmo que não haja nenhum motivo aparente. É como se buzinar fosse um pré requisito para pilotar uma moto.
Resolvi pagar na mesma moeda. Comprei uma buzina.
Toda vez que ouço a buzina de um motoqueiro, eu respondo a altura: se você ouvir por aí uma buzina dizendo: Sai motoqueiro veado!
Sou eu com o meu novo brinquedo.

Amilcar


Centro de Cuiabá. Carros, motos, ônibus e pessoas num fluxo incessante. Ali perto, numa escola, começa  a se formar uma pequena fila de carros, que em pouco tempo se tornará uma enorme fila de carros. São pais e mães que já aguardam o término do período matutino de aulas de seus filhos e os esperam para voltar pra casa.
Num desses carros, está Amilcar, médico, ortopedista, casado ha quatro anos e sem filhos, lendo silenciosamente. Quem ele espera ali? Ninguém.
Dr. Amilcar sai do pronto socorro as 11:45 da manhã. Meia hora antes do final das aulas. Ao invés de ir pra casa, desenvolveu um hábito diferente. Vai com seu carro até a frente de um colégio próximo do seu trabalho e ali estaciona. Quem passa por ali e vê aquele senhor de branco lendo dentro do carro rapidamente pensa que ele está ali esperando seus filhos. Não! Ele estaciona ali pra ler. E lê qualquer coisa: Quadrinhos, livros de medicina, ficção, panfletos ou um jornal.
Estava lendo quadrinhos àquela hora, quando percebeu que a fila de carros começava a aumentar. Ele já sabia. As aulas estavam acabando. Em poucos minutos o sinal do colégio tocaria, e as crianças sairiam correndo congestionando ainda mais o trânsito.
Ligou o carro e foi embora, como todos os dias.
Ele detesta filas.