quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Ensinei ao amor platônico o significado de saudade.
Saudade é um aperto no peito.
Saudade é não apertar.
Saudade é não ter perto.

O amor, platônico, concluiu: amor platônico é saudade antecipada.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Dia de arrumar algumas coisas


Domingo é dia de refexões. Pouco depois de acordar e ouvi a história de um amigo que bebeu de mais no sábado a noite e vomitou na balada. Ele se culpava e estava visivelmente envergonhado. Coisas de domingo.
Comecei a arrumar meu quarto e decidi sair pra comprar um tapete e algumas almofadas. Há algum tempo eu queria criar um espaço no meu quarto onde eu pudesse trabalhar, tocar, ouvir um som ou ler. Fui ao Shopping Santa Cruz ver o que eu encontrava para o meu novo recinto.
No caminho passei por um homem sentado na calçada que me pediu dinheiro. Ele tinha os pés descalços e sentava em um papelão. Disse a ele que não tinha. Continuei.
Já no o Shopping, comprei um tapete e três almofadas. Tudo muito próximo do que pensei para montar um sofá no chão.
Voltei pelo mesmo caminho e o homem estava lá ainda, no mesmo lugar. Ainda com os pés descalços e pedindo dinheiro. Eu novamente disse que não tinha.
Senti vergonha de passar ali.
Rezei para que ele não lembrasse de mim. Rezei para que não lembrasse da minha cara. Não lembrasse que antes de comprar um tapete e três almofadas eu tinha passado ali, dizendo que não tinha dinheiro.
O tapete começou a pesar uma tonelada nos meus ombros.
Aquele homem, como tantos outros por quem eu e você passamos todos os dias não precisava só de dinheiro. Ele precisava de atenção, de carinho, de oportunidade e de tantas outras coisas, que como o dinheiro, eu tinha e não dei. Fui pra casa pensando nisso.
Arrumei meu quarto, coloquei o tapete, as almofadas, trouxe meus instrumentos pra perto, e estava pronto o novo canto da casa. Um lugar onde eu podia, como tantos outros moradores de rua, me sentar no chão e tocar violão.
Fiquei pensando nisso. Pensando no que é que eu, você, e tantas outras pessoas estão fazendo pra ajudar o próximo. Ajudar um desconhecido. Ajudar quem pouco ou nada tem. Seja de dinheiro, de atenção ou de carinho.
Nesse domingo eu refleti. E me senti a pior pessoa do mundo.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Domingo Fiado


Abusei do sábado a noite, e perdi  cartão do banco. Na hora de pagar o almoço de domingo foi que eu me dei conta. E aí já era tarde. Dezesseis reais emprestados com o Goiano. Dezesseis e cinqüenta, na verdade. O preço do meu filé de frango a parmegiana.
Voltei pra casa, e comecei a procurar meu dinheiro de plástico. Inútil.
Quando eu já negociava um empréstimo com o Rodrigo e outro com o Quicão, me lembrei de procurar embaixo do som. Ta lá, achei. Empréstimos desfeitos, vamo pro jogo.
O jogo era Palmeiras e Avaí no estádio da Portuguesa, o Canindé.
Passamos num posto da Sena Madureira e todo mundo foi sacar dinheiro. Coloquei meu cartão na máquina e vi uma mensagem de erro. Aquele era um cartão antigo, já não valia mais. Perdi o cartão de novo.
Voltei ao assunto do empréstimo com o Quicão e o Rodrigo. Vinte reais de cada um, e vambora. Com os seis e cinqüenta que eu tinha, dava pra ver o jogo e ainda beber alguma coisa. Compramos os ingressos, umas bebidas e entramos.
O Canindé é velho, mas é charmoso. Fora isso o Palmeiras tem sorte no estádio dos portugas.
Não deu outra. Vitória maiúscula: 5 a 0 em casa. Dois do Luan, dois do Kleber e um do Lincoln. Fora uma arrancada do Cicinho, um gol perdido pelo Wellington Paulista e a expectativa frustrada de ver o Marcos fazer um gol de pênalti. O Felipão não deixou.
Foi um domingo rico, que valeu cada centavo emprestado.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Desengracei.

Você descobriu como me deixar sem graça. Me lembro como ontem. Tomávamos sorvete na Alaska do Boa Esperança. Eu, você, sua irmã e a Pamela.
Passaram uma hora me elogiando. E eu, como é meu costume, fiquei sem graça. Vocês achavam engraçado. Eu, o mais engraçado, virava um pamonha, sem graça. Dali em diante ruborizei muitas vezes. Quando eu aparecia de barba feita, choviam elogios. Quando eu ligava para fazer uma visita, também. Quando eu fazia um elogio era, definitivamente, o melhor homem do mundo. Título complicado de carregar. Outras observações suas eu prefiro não contar, mas ouvi. Ouvi e ouviram pessoas que não deveriam ouvir. Nessas vezes elas ficaram sem graça por mim. Desviaram seus olhares, e mudaram os seus assuntos. Eu fiquei ali, sem graça, com um falar amarelo, rezando para que você parasse de me elogiar em voz alta.


Hoje você acabou com a minha graça. E não tem gracejo nesse mundo que me faça ficar sem jeito de novo. Hoje eu sou um desgraçado. De hoje em diante pode levar seus elogios para os príncipes encantados que você conheceu mundo a fora. Eles, sim, merecem a sua verdade. Eu sou apenas um mentiroso, que talvez não ouça nenhum elogio seu no nosso próximo encontro. Nem precisa, a minha graça com você acabou.

domingo, 1 de maio de 2011

Prece

Orungã é rei dos ares. Filho de Iemanjá, mãe a quem violentou dando origem aos rios e aos mares.  Lá do alto, dos céus de Orungã eu olhava os rios de Iemanjá.  O interior do avião tinha um tom avermelhado-pôr-do-sol. Eu sabia que em mais ou menos 24 horas eu estaria, já em terra firme, analisando meu primeiro dia de trabalho.
Voava de Cuiabá, terra de São Benedito, para São Paulo, terra do santo com meu nome, e que antes de santo fora Saulo, o nome do meu irmão.
Pensava que, talvez, nenhuma outra pessoa tivesse pensado em fazer esse caminho como eu fiz. Se aventurar para outras terras procurando um trabalho em uma grande agência de propaganda. Talvez se Cuiabá fosse terra de Santo Expedito os homens teriam mais coragem. Talvez não. Talvez São Benedito tratasse muito bem seus filhos mais chegados, dando-lhes um pôr-do-sol tão bonito que quem nasce ali não consegue se afastar.
O piloto do avião confirmava que o pouso estava autorizado.
Orungã deixara nossa viagem acontecer em paz.
Eu pedi a Orungã, a Iemanjá, a São Benedito, a São Paulo, que tinha meu nome, a Santo Expedito, das causas impossíveis e Deus, Pai de Todos. Pedi sabedoria e forças para que eu pudesse ir cada vez mais longe. E que eu pudesse sempre voltar, para ver o pôr-do-sol mais bonito que qualquer homem já viu, presente de São Benedito.

domingo, 17 de abril de 2011

Domingo é dia de jogo.

Domingo é dia de jogo.
Vc pode ficar em casa e assistir o seu time.
Pode ver o seu camisa 9 dedicar o gol pra namorada dele.
E se ele fizer 3 gols vc ainda pode ouvir a música que ele pediu no fantástico.
Ou você pode montar o seu time.
Pode ser o camisa 9, meter gol num goleiro amigo, e dedicar pra sua namorada. Ou pra mina que vc pegou no sábado, no chorinho ou no garage.
Se fizer 3 gols, pode dedicar um pra cada mina que você pegou no sábado, e ainda escolhe a música pros seus amigos ouvirem no carro, durante a volta pra casa.
E ainda chega em casa a tempo de ver o fantástico e ouvir a música que o seu camisa 9 pediu.

LOUCASSOS POR FUTEBOL.
Todo domingo, das 15 as 18 horas.

sábado, 16 de abril de 2011

Conversas inteligentes, de amores bem acabados.


Entre futebol, astronomia, vida dos outros, e gastronomia, eles conversavam também sobre eles. O namoro que tiveram, as pessoas com quem mantiveram contato depois que o namoro acabou, os namoros que vieram depois. Tudo era assunto para aqueles dois. Suas afinidades superavam em muito as suas diferenças.
Ela tinha rodado o mundo. Foi pra Índia, pra Alemanha, lençóis maranhenses, Cuba, Florianópolis e um monte de outros lugares. Passou um carnaval maluco, em Diamantina, mesmo sem ter mais idade pra isso.
Ele mudou pro Rio de Janeiro, fez especialização no Uruguai, mestrado no México, e trabalhou na Argentina e no Peru. Conhecia um pouco da história e da cultura de cada lugar que viveu.
Naquele exato momento ele explicava a ela que a típica cerveja com limão mexicana tinha sido inventada apenas para espantar as moscas de perto da boca da garrafa. Ela agora tinha um olhar muito mais interessado na sua long neck.
Ela era publicitária, e trabalhava em uma agência de São Paulo. Ele era engenheiro, e tinha uma empresa consultoria de edificações.
Gostavam de se encontrar, mesmo que por acaso. Dessa vez tinham combinado um encontro com uma turma de amigos em comum. Conversavam à beira da piscina. Vira e mexe alguém entrava e saía da conversa. Não era segredo pra ninguém que os dois gostavam de se encontrar e conversar sem embaraço. Não eram um casal, mas algum desavisado poderia jurar que sim.
Ele era muito educado. O copo dela não ficava vazio.
Ela era legal. Nunca deixava ele buscar a cerveja sozinho.
Enquanto ele dava aula no futebol com os amigos, ela ouvia das amigas brincadeiras sobre o fôlego do rapaz.
Ele foi embora de bicicleta.
Ela foi de carro.