segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Presidente

Pode parecer repetitivo, mas não é.
A eleição de Dilma Rousseff provocou a revolta da classe média e as pessoas desembestaram a falar mal do povo brasileiro. Do povo brasileiro não. Dos pobres brasileiros, que segundo a classe média, elegeram Lula, e agora Dilma. Nas conversas de bar, nos twitters, nos orkuts e facebooks a indignação é mais ou menos a mesma: “cada país tem o presidente que merece”, ou “os políticos são o reflexo de um povo”.
Existe sempre uma clara alusão ao que a classe média chama de paternalismo da atual situação. Situação que, segundo a mesma classe, não fez nada de bom, a não ser continuar o que já era feito anteriormente.
Concordo com alguns pontos, descordo de outros. Mas concordo principalmente com um: o presidente eleito de maneira democrática e direta, como acontece no Brasil, reflete o que pensa o povo de um país, sim.
E esse talvez seja o ponto que algumas pessoas ainda não entenderam.
A classe média preferiu curtir o feriadão. A taxa de abstenção no segundo turno foi a maior desde 1989. Mas a classe média não vai dormir com essa culpa, vai?
Burros, ignorantes e desinformados são os pobres que não tem casa na praia, e foram às urnas, exercer seu direito de escolher o que acham melhor para os próximos 4 anos, e não para os próximos 4 dias.
Não sou a favor de nenhum candidato, e não gostaria de ser interpretado dessa maneira. Não sou contra a classe media, nem contra nenhuma outra classe. Sou contra a falta de informação, e a levianidade que algumas pessoas encaram a política.
O Brasil precisa de gente que se importe com política sempre. Pessoas de caráter, que divulguem suas opiniões inclusive em anos não-eleitorais. Se concordamos que para votar precisamos, às vezes, escolher o “menos pior”dos candidatos, precisamos urgentemente criar uma consciência política perene, ao invés de fazermos propaganda para nossos escolhidos e/ou amigos a cada dois anos, entre julho e outubro. Parece repetitivo, mas ainda é pouco.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Geba


Como sabia contar histórias aquele sujeito. Geba. Não sei bem de onde veio o apelido, mas lhe caía bem. Ele tinha cara de Geba mesmo. Contador de histórias como poucos, sabia dar o devido valor a cada detalhe.
Esmiuçava as caretas e as expressões de cada envolvido em seus causos, tornando cada história ainda mais incrível.
Por que um bom contador, além de melhorar as histórias ruins, sempre tem acontecimentos incríveis para relatar minuciosamente.
Naquela noite de terça ele me contava sobre o jogo de futebol americano que acabara de fotografar.
Detalhes sobre a luz, as lentes, a torcida, as sensações, tudo. Tudo era alvo da atenção daquele excepcional fotógrafo, que sabia mais do que fazer uma foto. Ele sabia contá-la.
O full back recebera livre na última chance do time para converter o ponto. Escapara de um marcador e pulara de um outro convertendo o touch down já na prorrogação. Mas não era apenas um pulo. Era um pulo contado por ele. Tinha uma emoção de quem assiste um gol do outro futebol, marcado aos 45 minutos do segundo tempo de uma final.
Eu sentia a truculência do time adversário na maneira como o meu interlocutor fechava a cara ao contar cada segundo da partida.
Depois teve ainda o touch down do time visitante. Talvez ele tivesse contando com um pouco menos de empolgação. Como eu disse, ele sabia dar o devido valor a cada detalhe.
Terminou a sua narração póstuma, e se encarregou de mostrar as fotos do evento. Ainda frescas, na máquina mesmo. Sem edição.
Eram boas. Muito bem feitas e isso eu já esperava dele.
Mas não era o mesmo touch down que ele havia me contado. Aquilo que o visor da camera me mostrava era um belo pulo, uma foto impressionante de um momento exato. Mas faltava alguma coisa. Faltava a narração. Faltava o Galvão Bueno gritando: É tetraaa!
Como sabia contra histórias aquele sujeito.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

As Normais

Sentado na recepção eu me lembrava de uma conversa que tive com minha mãe quando era muito criança. A gente andava pelo shopping e ao ver duas mulheres muito arrumadas passarem por perto eu disse: Acho que eu não vou gostar disso aí quando eu crescer.
Minha mãe se assustou. Ela não entendeu que eu falava do excesso de zelo ao se arrumar. Ficou com medo de eu ser gay, eu acho.
Me lembrava da conversa, ali na recepção, enquanto aguardava para ser entrevistado.
O motivo? Uma mineira, com um sotaque inconfundível, dessas que se arrumam demais. Ela era muito bonita, toda maquiada, roupas combinando, sandália bonita, impecável. Veio até a recepção e empinou a bunda na minha direção enquanto conversava com uma das recepcionistas. Fiquei com a impressão de que ela tinha feito aquilo só pra que eu olhasse. Eu olhei.
Foi aí que eu me lembrei da conversa que tive no shopping, há muito tempo atrás.
A psicologia freudiana diz que a gente tende a se apaixonar por uma mulher que nos lembre a nossa mãe. Não sei se é bem verdade, mas a minha mãe não é dessas mulheres que andam impecáveis e exalando futilidade. Ela é normal. E talvez por isso eu tenha adquirido esse gosto por mulheres normais.
Interrompi os pensamentos para ser entrevistado. Fui bem. Saí da sala de reuniões com uma boa impressão, e me considerando um forte candidato. O próximo passo era conhecer a empresa. Saí andando de departamento em departamento, olhando basicamente para as mulheres. Muitas mulheres. Umas bonitas, umas interessantes, umas feias e uma normal. Nunca acreditei em amor a primeira vista, e continuo não acreditando, mas ao olhar pra ela eu tinha a certeza de que seu fosse contratado, elas seria a minha escolhida. Ela era perfeitamente normal. Dessas que se vestem bem, mas sem exagerar. Que conversam sobre assuntos normais. Nem muita futilidade, nem muito intelecto. Não parecia usar muita maquiagem, e nem precisava. A maquiagem foi feita para as feias e para as bonitas. Essas pra evidenciarem o quanto são belas, aquelas, pra amenizarem algum defeito de fábrica.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Domingo como os outros

Domingo como os outros. Acordara atrasado pro pagode, com a mesma ressaca moral de sempre, a mesma voz grossa de sempre, e com a TV que dormira ligada. A coitada não tinha mais timer.
Primeiro destino: o celular. Com certeza alguém já teria ligado ou mandado alguma mensagem que o intimasse a estar em algum lugar muito distante, numa hora muito próxima. Lá estava a mensagem: Vila Rica hj... chegar as 16. SEM FALTA! Ele tinha uma hora e 15 minutos para estar pronto.
Uma ligação era questão de tempo, pensara 2 segundos antes de o telefone tocar:
- Fala, chapa!
- E aí, chapa? Tá melhor?
- To tranqüilo, você tá pronto?
- Claro que não! Você tá?
- Não, vou tomar banho ainda. Umas 3:30 eu passo aí, demorô?
- Beleza, valeu.
- Falou.
Pronto. Havia perdido 30 minutos. Teria que se arrumar com uma pressa que não combinava com um domingo de sol, e a preguiça que ele incita.
Decidiu deixar toda a sua criatividade para o samba e vestiu um jeans, um tênis e uma camiseta. Sem buscar um estilo ou coisa parecida. O espelho o agradou, e o telefone a essa hora já tocava novamente:

- Desce logo caralho!

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Gosto de você

Não gosto muito de declarações.
Mas gosto de você, e gostaria que você soubesse.
Gosto de você antes de te conhecer direito.
Gosto de você loira.
Gosto morena.
Gosto rosa.
Gosto do seu jeito de falar e de como aperta as minhas bochechas quando fala. Gosto do seu cheiro desde que você era proibida pra mim. E gosto de lembrar dele de vez em quando.
Gosto do seu violão.
Gosto de ler o que você escreve.
Gosto de você com cigarro ou sem.
Gosto de você com chocolate ou sem.
Gosto de você com Coca.
Gosto de estar perto.
Gosto de estar longe. Porque dá saudades, e eu gosto de pensar em você.
Gosto de você na Chapada, em Cuiabá e em São Paulo.
Gosto de você no terraço, no carro, em casa.
Gosto de ouvir sua voz.
Gosto do seu humor.
Gosto mais do seu mau humor.
Gosto de andar de mãos dadas, presas só pelo dedinho.
Gosto de lembrar da gente.
Porque?
Porque gosto.
De você.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Mentiras


Pessoas mentem. E isso é fato.
Todos os dias, todo mundo mente.
Ou pra mãe, ou pro chefe, pra um amigo ou um desconhecido.
A mentira faz bem pro ego. Leva pra longe, mesmo que momentaneamente, as angústias que alguém pode carregar.
Tem sempre alguém querendo parecer um filho melhor, um funcionário melhor, um amigo melhor ou um desconhecido bacana.
Mentir para os outros é a segunda pior coisa que alguém pode fazer.
Mentir pra si mesmo é , com certeza, a primeira
Fingir ser alguém que não é.
Fazer alguma coisa que não quer.
Dizer alguma coisa em que não acredita.
O porque de tanta mentira?
As pessoas mentem porque querem ser melhores. Parecer melhores.
Porque toda mentira começa em uma verdade, que gostaríamos de esconder.

Brasília, com Millôr


A terra é uma massa redonda, ligeiramente chata nos pólos e muito mais em Brasília. Não sou só eu que acho isso.
E é muito fácil provar que é verdade.

Tem pouca gente nos pólos. Culpa do frio.
Sobra gente em Brasília. Culpa do Senado.

Fala-se pouco nos pólos. Culpa do frio.
Fala-se demais em Braília. Culpa da imprensa.

Nos pólos há pingüins e ursos.
Em Brasília, veados.

No fim das contas, parece que Deus se esqueceu dos pólos.
E nunca viu Brasília.

Pra não parecer que só falo de problemas, fica aqui a minha solução.
A terra continua redonda, ligeiramente chata nos pólos e a gente explode Brasília.

Buzinas


Poucas coisas me irritam mais que alguém buzinando no trânsito. Talvez o meu pai buzinando na minha orelha. Talvez.
Qualquer pessoa que tenha freqüentado a auto escola sabe: a buzina deve ser tocada de maneira moderada uma ou duas vezes para alertar alguém ou chamar a sua atenção. Só.
A conclusão óbvia é: motoqueiros não fizeram auto escola.
Eles buzinam quando querem furar um sinal, quando passam no corredor formado pelos carros, quando quebram um retrovisor, quando se encontram, quando passa uma gostosa na calçada, quando viram sem dar seta, ou simplesmente porque já estão viciados, mesmo que não haja nenhum motivo aparente. É como se buzinar fosse um pré requisito para pilotar uma moto.
Resolvi pagar na mesma moeda. Comprei uma buzina.
Toda vez que ouço a buzina de um motoqueiro, eu respondo a altura: se você ouvir por aí uma buzina dizendo: Sai motoqueiro veado!
Sou eu com o meu novo brinquedo.

Amilcar


Centro de Cuiabá. Carros, motos, ônibus e pessoas num fluxo incessante. Ali perto, numa escola, começa  a se formar uma pequena fila de carros, que em pouco tempo se tornará uma enorme fila de carros. São pais e mães que já aguardam o término do período matutino de aulas de seus filhos e os esperam para voltar pra casa.
Num desses carros, está Amilcar, médico, ortopedista, casado ha quatro anos e sem filhos, lendo silenciosamente. Quem ele espera ali? Ninguém.
Dr. Amilcar sai do pronto socorro as 11:45 da manhã. Meia hora antes do final das aulas. Ao invés de ir pra casa, desenvolveu um hábito diferente. Vai com seu carro até a frente de um colégio próximo do seu trabalho e ali estaciona. Quem passa por ali e vê aquele senhor de branco lendo dentro do carro rapidamente pensa que ele está ali esperando seus filhos. Não! Ele estaciona ali pra ler. E lê qualquer coisa: Quadrinhos, livros de medicina, ficção, panfletos ou um jornal.
Estava lendo quadrinhos àquela hora, quando percebeu que a fila de carros começava a aumentar. Ele já sabia. As aulas estavam acabando. Em poucos minutos o sinal do colégio tocaria, e as crianças sairiam correndo congestionando ainda mais o trânsito.
Ligou o carro e foi embora, como todos os dias.
Ele detesta filas.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Homenagem a um passarinho

Se eu fosse um pássaro talvez não pudesse tocar violão. Mas talvez pudesse voar até a janela de um grande violonista pra ouvi-lo tocar. Talvez me pudesse ouvir tocar, e chamar os outros passarinhos pra saber a opinião deles. E com meu canto eu imitaria um violão, o meu ou de qualquer outro que eu pudesse ouvir.
Acho que eu seria um pássaro namorador, e teria várias casas na arvore. Ia querer morar numa acácia. Gosto de amarelo. Gosto de acácias também.
Ia ter um amigo bem te vi e tentar ensiná-lo a cantar como um violão. Ia ter um amigo João de barro pra visitar a sua casa de vez em quando. Conheceria um papagaio e quem sabe eu ate conseguisse lhe ensinar uma música inteira?  Mas acho que o meu melhor amigo seria um beija flor. Eu ia querer aprender tudo: como parar no ar, ou saber que flor se come no frio. Ia querer saber se eles gostam daquela água com açúcar que a gente põe na janela, ou se eles bebem só pra agradar, ou pra se mostrar. Ia perguntar tudo.
Uma coisa não ia mudar: meu medo de gatos. Quem sabe como um pássaro eu conseguisse entender como os gatos pensam. Mas manteria distância.
Não morreria sem tentar ensinar uma galinha a voar, ou uma pomba a ser legal.
Deve ser legal ser um pássaro, embora eu não queira ser um urubu, muito menos um gavião. Mas pode ser que hajam resquícios de humanidade nessa minha falta de vontade. Talvez por isso eu topasse ser um quero quero, e assistir os jogos do palmeiras sempre do gramado. No intervalo eu comia umas minhocas. Tem pássaro que gosta de assistir paradinho na rede do gol. Eu acho um perigo, mas gosto é como crista: tem pássaro que não tem.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Salve, Alemão.


Era uma noite boa. Já tínhamos falado muito sobre futebol, internet e mulheres. Os trigêmeos e o Michel tinham enchido o saco dos palmeirenses, por conta da desclassificação na Copa do Brasil. Os palmeirenses (dentre os quais estava eu) já tinham falado sobre a eliminação do Corinthians na libertadores. E os são paulinos mantinham aquele ar de superiores que sempre tem, mesmo quando ganham feio, seja na Copa do Brasil ou na Libertadores.
Enfim, os assuntos iam se acabando e a hora de fumar se aproximava. O Michel foi embora. Já passavam das duas horas da manhã e ele tinha que trabalhar cedo. O Paulinho saiu pra andar com a gente, por que tinha que trabalhar e não queria dormir antes da labuta.
Seguimos para uma praça, já com o cigarro produzido. Sim, de vez em quando nós fabricamos nossos próprios cigarros. Embora a gente goste do controle de qualidade que os cigarros prontos nos fornecem, de vez em quando a gente troca toda essa qualidade por uma boa quantidade de risadas. Sempre vale a pena.
Na praça encontramos um senhor, que dizia ser de Minas Gerais, e estava em São Paulo para um tratamento cardíaco. Tinha 42 anos e vendia algumas  coisas que tinha pra poder comprar comida. Um gel de cabelo, uma escova de cabelo e uma geléia feita pela mãe dele.
Conseguimos juntar R$ 9,00 pra ele e nem pegamos nada do que ele tinha. Ele de fato parecia precisar da grana. Alem de cardíacos, a praça sempre tem desabrigados, como tantas outras. Sentamos por perto de alguns, que a essa hora já dormiam.
As risadas já estavam um pouco altas quando o último morador da praça chegou. Com cara de cansado e se eu não me engano, ligeiramente alcoolizado. Chegou e começou a gritar pra acordar um japonês que dormia num banco com dois cobertores. Um cobertor era dele, do nosso futuro colega.
Depois de desistir do cobertor do colega, ele resolveu conversar com  a gente. Contou o dia dele inteiro, da hora que acordou até a briga que já tínhamos visto com o japonês ladrão de cobertor.
- Passei o dia na Higienópolis, dizia ele. Cara humilde que mora ali vocês não sabem quem é.
- Ronaldo! Respondeu o Paulinho acabando com o suspense criado por ele.
- Ele mesmo. Todo dia eu vejo a X6 dele entrando na garagem.
Se quando ele começou a falar nós achávamos que ele estava mentindo, a essa hora tínhamos certeza, mas ele era divertido. Pediu um daqueles cigarros industrializados e ficou no canto dele fumando. Ele lá, a gente cá.
A gente já tinha se levantado pra ir embora quando ele resolveu puxar mais um assunto. Não me lembro muito bem o que era, mas foi interrompido pelo Danilo:
- Você conhece o Alemão ali da Higienópolis? Claramente inventando um nome de alguém que ele nunca viu.
- O Alemão? É meu parceiro! Mentiu ele (ou não). Mas nem fala muito dele aqui não, porque os caras aí não gostam muito dele não.
Seguramos o riso enquanto deu. E acho que na hora que todos começaram a rir, nosso colega já não podia mais ouvir. Estávamos suficientemente longe da praça, falando de futebol, internet, mulheres e do Alemão.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Nadir


Esses dias ouvi alguém falar da Nadir. Pra quem não conhece, a Nadir era  a moça do almoxarifado na escola que fiz o meu primeiro grau (como se fala isso hoje em dia?). Sabia ser brava, mas não era assim sempre. Quando precisava ela  espinafrava alguma professora folgada ou um aluno sem educação. Era demais!
Desde pequeno sempre tive uma teoria: Seja amigo da moça do almoxarifado. Sempre funciona! A Nadir brigava com algumas pessoas, mas quando eu chegava no almoxarifado, ela estava sempre sorrindo pra mim. Eu entrava na sala e passava pelas prateleiras pegando tudo que eu precisava. Na saída eu deixava a requisição com ela, e pronto. Tínhamos uma relação de confiança. Ela sabia que eu nunca pegava nada a mais. E isso era quase sempre verdade. Exceção feita a alguns lápis 6B que eu levava a mais, pra desenhar nas carteiras, e pintar os cartões telefônicos pra não gastar os créditos.
Durante alguns momentos na minha vida, a Nadir era a pessoa mais importante do mundo. Se ela não me arrumasse um pote de gel, momentos antes da feira de ciências da 5­ª série talvez eu não tivesse levado pra casa o simbólico titulo popular de melhor maquete da escola. Talvez não tivesse conseguido montar meu cinema de pobre às pressas, depois de perder um vôo e ter que ir pra feira de ciências da 4ª.
Era assim, pouco se falava da Nadir durante o ano inteiro. Mas perto das feiras de ciências e das reuniões de pais e mestres todo mundo tinha um pedido pra fazer. Papel ao maço, cartolina, canetinha, cola quente, tesoura sem ponta, com ponta, serrilhada, régua de 30cm, de 50cm, de plástico, de ferro, tudo. Ela sabia onde estava tudo. Mas cheguei a vê-la se fazendo de desentendida umas boas vezes, e não encontrar alguma coisa para algum aluno que pensava ser dono da escola, ou alguma professora que achava que era a chefe dela. Acontece, afinal de contas, tem gente que vai passar a vida sem aprender que para pedir alguma coisa é necessário ter educação.
Depois de sair da escola perdi contato com a Nadir. Fiquei um bom tempo sem saber dela. Não sei se continua no almoxarifado, se continua na escola, se continua brava, se continua gordinha, nada. Nunca mais soube nada.
Até que esses dias ouvi alguém falar dela. Minha mãe trabalhava na escola que eu estudei, e algumas amigas dela ainda estão por lá. Ouvi uma conversa de que a Nadir estava mal. Câncer na garganta parece. Mesmo sem ter notícias dela há quase 10 anos fiquei chateado.  Só eu sei quantos galhos ela quebrou pra mim. Espero que papai do Céu quebre esse galho pra ela, e deixe ela por aqui mais um tempo. Quem sabe eu ainda a vejo de novo.