Esses dias ouvi alguém falar da Nadir. Pra quem não conhece, a Nadir era a moça do almoxarifado na escola que fiz o meu primeiro grau (como se fala isso hoje em dia?). Sabia ser brava, mas não era assim sempre. Quando precisava ela espinafrava alguma professora folgada ou um aluno sem educação. Era demais!
Desde pequeno sempre tive uma teoria: Seja amigo da moça do almoxarifado. Sempre funciona! A Nadir brigava com algumas pessoas, mas quando eu chegava no almoxarifado, ela estava sempre sorrindo pra mim. Eu entrava na sala e passava pelas prateleiras pegando tudo que eu precisava. Na saída eu deixava a requisição com ela, e pronto. Tínhamos uma relação de confiança. Ela sabia que eu nunca pegava nada a mais. E isso era quase sempre verdade. Exceção feita a alguns lápis 6B que eu levava a mais, pra desenhar nas carteiras, e pintar os cartões telefônicos pra não gastar os créditos.
Durante alguns momentos na minha vida, a Nadir era a pessoa mais importante do mundo. Se ela não me arrumasse um pote de gel, momentos antes da feira de ciências da 5ª série talvez eu não tivesse levado pra casa o simbólico titulo popular de melhor maquete da escola. Talvez não tivesse conseguido montar meu cinema de pobre às pressas, depois de perder um vôo e ter que ir pra feira de ciências da 4ª.
Era assim, pouco se falava da Nadir durante o ano inteiro. Mas perto das feiras de ciências e das reuniões de pais e mestres todo mundo tinha um pedido pra fazer. Papel ao maço, cartolina, canetinha, cola quente, tesoura sem ponta, com ponta, serrilhada, régua de 30cm, de 50cm, de plástico, de ferro, tudo. Ela sabia onde estava tudo. Mas cheguei a vê-la se fazendo de desentendida umas boas vezes, e não encontrar alguma coisa para algum aluno que pensava ser dono da escola, ou alguma professora que achava que era a chefe dela. Acontece, afinal de contas, tem gente que vai passar a vida sem aprender que para pedir alguma coisa é necessário ter educação.
Depois de sair da escola perdi contato com a Nadir. Fiquei um bom tempo sem saber dela. Não sei se continua no almoxarifado, se continua na escola, se continua brava, se continua gordinha, nada. Nunca mais soube nada.
Até que esses dias ouvi alguém falar dela. Minha mãe trabalhava na escola que eu estudei, e algumas amigas dela ainda estão por lá. Ouvi uma conversa de que a Nadir estava mal. Câncer na garganta parece. Mesmo sem ter notícias dela há quase 10 anos fiquei chateado. Só eu sei quantos galhos ela quebrou pra mim. Espero que papai do Céu quebre esse galho pra ela, e deixe ela por aqui mais um tempo. Quem sabe eu ainda a vejo de novo.
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